CAFÉ DOS LOUCOS

Crônicas e poemas de um insone crônico e poético

Quarta-feira, Fevereiro 19, 2003

QUARTA-FEIRA

Em cada canto
do meu quarto
há uma nota
do meu canto

Em cada nota
uma angústia,
uma dor que
ninguém nota

Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003

LHE ENCONTRAR

Em alguma ilha distante,
na fogueira à beira do mar
Só a lua vigiando
mas sei que vou lhe encontrar
Entre um som e outro
quanto tempo vou esperar
Uma chance de dizer
que é só você que eu vou amar

E a vida vai seguindo assim
Você a procurar por mim
Não sei o que fazer pra lhe encontrar

Então faço outro poema,
mais uma canção de amor
Sonhando com nosso encontro
num grande show ou no elevador
Quando estico o braço
pra desligar o despertador
Supreso, olho para o lado:
é você quem está puxando o cobertor
CASA DAS ROSAS

Ele ficava horas alí, na janela, olhando para o jardim seco, todos os dias.

Eu, garoto de calças curtas na época, fui notar aquele senhor na terceira semana que havia mudado para aquela rua. Já tinha ouvido falar dele. Saía pouco da casa e, quando saía, era para ir até o jardim regar o solo seco. Fazia isso há anos.

Curioso, como todo garoto, perguntei para o Zé, dono do bar onde ia comprar suspiro e doce de abóbora (daqueles em formato de coração), qual era o problema daquele senhor. Se chamava Antônio e tinha lá seus 80, 85 anos. Casou-se aos 20 com Josefa, moça prendada e uma das mais bonitas daquele lado da cidade. Por problemas médicos, nunca tiveram filhos.

Aquela foi a primeira e única casa que moraram. Era conhecida como a Casa das Rosas. Josefa tinha mãos de fada no jardim e suas rosas e cravos enfeitavam a casa de todos os vizinhos. Era uma época boa, todos cordiais, todos se ajudando.

Porém, os problemas médicos levaram Josefa a morte. Não demorou muito para o jardim morrer também. Antônio não sabia o que fazer e, desde aquele dia, regava e ficava na janela, esperando algo florescer. Dizia que quando nascesse uma rosa seria o dia mais feliz de sua vida: o dia em que veria Josefa novamente.

História triste, que acabei arquivando em meus pensamentos entre uma roda de pião e uma disputa de bolinhas de gude.

Certo dia, indo até o bar comprar uma broa de milho, não ví Antônio na janela. Comentei com o Zé, que me informou da morte dele. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, senti uma ponta de tristeza lá no fundo. Na volta, parei em frente à casa, toda fechada, e me perdi em pensamentos. Olhei bem a janela, a parede castigada pelo tempo, as vigas do telhado. Olhei para o jardim seco e estavam brotando uma rosa e um cravo, quase que lutando para sair da terra seca. Antônio estava junto de Josefa novamente.

Depois de algumas semanas, aquela casa voltou a ser conhecida como "Casa das Rosas".