CASA DAS ROSAS
Ele ficava horas alí, na janela, olhando para o jardim seco, todos os dias.
Eu, garoto de calças curtas na época, fui notar aquele senhor na terceira semana que havia mudado para aquela rua. Já tinha ouvido falar dele. Saía pouco da casa e, quando saía, era para ir até o jardim regar o solo seco. Fazia isso há anos.
Curioso, como todo garoto, perguntei para o Zé, dono do bar onde ia comprar suspiro e doce de abóbora (daqueles em formato de coração), qual era o problema daquele senhor. Se chamava Antônio e tinha lá seus 80, 85 anos. Casou-se aos 20 com Josefa, moça prendada e uma das mais bonitas daquele lado da cidade. Por problemas médicos, nunca tiveram filhos.
Aquela foi a primeira e única casa que moraram. Era conhecida como a Casa das Rosas. Josefa tinha mãos de fada no jardim e suas rosas e cravos enfeitavam a casa de todos os vizinhos. Era uma época boa, todos cordiais, todos se ajudando.
Porém, os problemas médicos levaram Josefa a morte. Não demorou muito para o jardim morrer também. Antônio não sabia o que fazer e, desde aquele dia, regava e ficava na janela, esperando algo florescer. Dizia que quando nascesse uma rosa seria o dia mais feliz de sua vida: o dia em que veria Josefa novamente.
História triste, que acabei arquivando em meus pensamentos entre uma roda de pião e uma disputa de bolinhas de gude.
Certo dia, indo até o bar comprar uma broa de milho, não ví Antônio na janela. Comentei com o Zé, que me informou da morte dele. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, senti uma ponta de tristeza lá no fundo. Na volta, parei em frente à casa, toda fechada, e me perdi em pensamentos. Olhei bem a janela, a parede castigada pelo tempo, as vigas do telhado. Olhei para o jardim seco e estavam brotando uma rosa e um cravo, quase que lutando para sair da terra seca. Antônio estava junto de Josefa novamente.
Depois de algumas semanas, aquela casa voltou a ser conhecida como "Casa das Rosas".